A CURA DIVINA NA HISTÓRIA DA IGREJA A CRENÇA DA CURA DIVINA NA HISTÓRIA DA IGREJA

A celebração dos milagres de cura divina como parte inseparável da salvação que nos é oferecida por Deus, e que evidencia sua poderosa presença na vida da Igreja, talvez seja mais característica do pentecostalismo até mesmo do que a doutrina do Espírito Santo conforme exposto no capítulo anterior. As raízes deste ensino são bastante complexas e difíceis de serem rastreadas. Isto, em parte, devido aos problemas com a distinção entre superstições da piedade popular, a tendência de cristãos em todos os tempos e lugares de orar por alívio em situações de angústias e infortúnios, bem como a diversidade de doutrinas desenvolvidas sobre a possibilidade de cura divina como resposta direta da fé da pessoa crente.

Entretanto, usando os recursos oferecidos pelas fontes históricas que se tem descoberto com relação ao desenvolvimento da doutrina do pentecostal do batismo do Espírito Santo, pode-se delinear o surgimento da doutrina da cura divina e entender-se como esta surgiu a partir do mesmo reavivamento dos temas perfeccionistas. Não se pode resolver de imediato as questões muito complicadas acerca de como entender a validade permanente do tema da cura divina na tradição cristã.

O pentecostalismo, não importando como tais questões podem ser respondidas, entendeu a si mesmo como sendo a restauração de uma prática da Igreja Primitiva que ficou perdida no passado. Discussões sobre a exata natureza e papel da prática da cura divina nos primórdios da Igreja vão continuar por muito tempo. ( Baseando-se consideravelmente no trabalho de Evelyn Frost, afirma que a Igreja Primitiva se caracterizava por sua ênfase na prática da cura divina relacionada muitas vezes com uma avaliação positiva do corpo humano, refletida na insistente importância que dava à doutrina da ressurreição do corpo, uma doutrina “realista” da Expiação que realça a vitória de Cristo sobre os poderes e forças do mal impostas à vida humana (3) Tais temas aparentemente foram desaparecendo com a formação da Igreja

Constantiniana, quando os milagres de cura divina foram relegados mais e mais como sinais de santidade exemplar e a transformação da unção de enfermos em sacramento da extrema unção. Kelsey, preocupado em restabelecer certos temas do platonismo nas vestes modernas de Carl Jung(4), dá especial ênfase ao surgimento de concepções aristotélicas mais próxima dos modelos de intervenção divina fora da ordem natural das coisas. A polêmica protestante contra as alegadas “superstições” católicas, mais a intenção de reduzir o número dos sacramentos, contribuiu para reforçar tal desaparecimento.

Por exemplo, mesmo que um dos textos fundamentais sobre a prática da unção de enfermos apareça na carta de Tiago, Lutero não deu importância, pois afirmou que: “Cristo não instituiu a unção com óleo como sacramento e muito menos as palavras de São Tiago são para os dias de hoje. Naquele tempo, os enfermos eram frequentemente curados mediante milagres e da sincera oração da fé, como vemos nos Carta de Tiago e no Evangelho de Marcos. (5) Alguns sugerem que Lutero teria mudado de opinião nos anos finais de sua vida. (6) Defensores das doutrinas sobre cura divina frequentemente se referem a um episódio em que Filipe Melanchthon teria recuperado sua saúde após orações do próprio Lutero.

Mas há pouca dúvida sobre o propósito do pensamento de Lutero, que acabaria por dar o tom a grande parte do protestantismo, ao minimizar a importância de temas relacionados com a prática da cura divina.

Fonte: Dayton, Donald. Raízes teológicas do Pentecostalismo / Donald Dayton ; tradução de Paulo Ayres Mattos ; revisão de Renato Cunha. – Natal, RN : Carisma, 2018. Referências: (1) Morton T. Kelsey. Healing and Christianity in Ancient Thought and Modem Times. New York: Harper and Row, 1976. (2) Evelyn Frost. Christian Healing, London: A. R. Mowbray, 1940. (3) A teoria da Expiação conhecida como “Christus Victor”. Ver Gustaf Aulén, Christus Victor. Edinburgh: CrossReach Publications, 2016.

Para uma apreciação crítica dessa teoria, ver Hans Boersma, “Penal Substitution and the Possibility of Unconditional Hospitality”. Scottish Journal of Theology, Vol. 57, no. 1, 2004, p. 80-94. [N.T.]. (4) Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço fundador da psicologia analítica. (5) Numa carta ao Eleitor de Brandemburgo, datada de 4 de dezembro de 1539, citada por Benjamin B. Warfield, em Counterfeit Miracles. New York: Charles Scribner’s, 1918. Ver também, Martinho Lutero [edição brasileira].

“Do cativeiro babilônico da igreja: um prelúdio de Martinho Lutero”. Obras Selecionadas. O Programa da Reforma: Escritos de 1520 (3ª Edição Atualizada). Vol. 2. São Leopoldo: Comissão Interluterana de Literatura, 2015. p. 253-257. (6) Ver Morton Kelsey. Healing and Christianity, p. 233, e Bengt R. Hoffman. Luther and the Mystics. Minneapolis: Augsburg, 1976.

Orai sem cessar.

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